PAIXÃO PELA COERÊNCIA, ARROGÂNCIA

20 nov

Um dia um amigo e guru me ensinou algumas palavras chave da sabedoria oriental. Este que eu chamo de amigo na verdade foi um chefe que eu tive na indústria. Tornou-se meu amigo sem mesmo o saber. É o senhor Akira Hakamada, e isso aconteceu há muitos anos atrás.

Nem semprePosteriormente tive oportunidade de ter um relacionamento profissional com outro de ascendência oriental que também se tornou meu amigo, senhor Alexandre Nonaka, com quem pude falar sobre aquele aprendizado inicial com o Akira e quem me indicou a leitura de algumas coisas sobre o código de honra dos samurais japoneses, o Bushido.

A cultura milenar japonesa de fato ensina, por exemplo, que a humildade seria a principal virtude a ser cultivada em um ser humano.

Definitivamente não trata-se da humildade daquele que vive resignado, a abaixar tanto a cabeça que chega a mostrar a bunda. A humildade em questão alerta para que se possa entender a permanente necessidade de aprender.  E aprender sempre remete a mudanças.

Por que? Porque todas as vezes que algo é aprendido alguma coisa é acrescida ao conhecimento, o que, necessariamente, induz a que alguma coisa seja modificada. Não é possível aprender alguma coisa nova e não mudar nada. Um aprendizado sem mudança não é aprendizado. Sequer é  escutar.  Sequer ouvir.

Quando alguma coisa nova surge para cada um, dois caminhos são possíveis. O aprendizado e o descarte. Ao se descartar, de fato, não há aprendizado e, na maioria das vezes, não há mudança. Há nestes casos reforço de comportamentos e posturas anteriores. Diferentemente, o aprendizado ensina novas coisas, traz novos conhecimentos e, em consequência, novos comportamentos, novas posturas, mudanças na vida.

Como certa vez ensinou Clarice Lispector, “só o que está morto não muda”. Todo ser vivo muda. Todo ser vivo muda contínua e permanentemente. Só o que está morto não muda.

Só o que está morto não consegue aprender.

E é curioso observar-se vida afora casos em que o aprendizado é descartado. Rejeita-se a possibilidade de aprender. O aprendizado que naturalmente levaria a mudanças chega a ser repudiado, ainda que diante de evidências claras e objetivas.

Ao contrário do que ensina a sabedoria oriental, aspectos assim são encontrados entre aqueles que, além de não cultivar a humildade, adubam fervorosa e permanentemente a arrogância.

Resultam apresentarem, em algumas circunstâncias, o comportamento de mortos vivos, posto que só o que está morto não muda e aquele que nunca aprende, obviamente, estaciona em patamares antes estabelecidos.

Crenças e convicções, certezas, ainda que contrariem fatos, ainda que a evidência da realidade faça colisões diárias com estas verdades antes tidas como certas e precisas.

Esta arrogância é assim chamada paixão pela coerência. A paixão pela coerência impede o aprendizado. A paixão pela coerência impede mudanças, em consequência. A paixão pela coerência estimula o oposto da humildade, que resulta ser a soberba, a vaidade obsessiva, o egocentrismo exagerado, o desamor.

Desamor, entendido como o oposto do amor, é o ódio.

A paixão pela coerência estímula o maniqueísmo do preconceito, do racismo, da homofobia, da segregação, das separações, das partições, das divisões. A paixão pela coerência dificilmente leva a união. É sectária em sua natureza e essência. Arrisco a dizer que a paixão pela coerência apenas funciona como alicerce para a formação de guetos, quadrilhas, gangues, tribos isoladas e pouco pensantes.

A paixão pela coerência, a arrogância, a soberba conduz ao “cada um por si”. Conduz e induz ao foda-se, ao dane-se, ao inferno, ainda que vivo-morto ou morto-vivo.

E é neste cenário que se vê a civilização a caminhar. É neste cenário que se vê a civilização a se arrastar. É neste cenário que se projeta a civilização a se degradar. Colisões, conflitos, guerras, revoltas, rebeliões, colisões, conflitos, guerras, revoltas, rebeliões, colisões, conflitos, guerras, revoltas, rebeliões… VIOLÊNCIAS.

O império do mal. O império do capeta. O verdadeiro inferno onde Lúcifer dá as cartas e determina o comportamento de cada um.

Será que estamos mesmo dispostos a fazer este pacto com o demônio? Será mesmo esta a vontade da humanidade em sua esmagadora maioria? Ou será que a esmagadora maioria caminha como uma manada para os braços do capeta?

Uma vez no inferno, no inferno para sempre. E sempre pode ser tempo demais.

Paixão pela coerência, arrogância, soberba. Esquecer a sabedoria que pode ser a cada vez incrementada se a humildade preponderar. Fazer a opção deliberada pela ignorância.

Idiotas manipulados ou bestas ao cabresto? As opções não são muitas. Na verdade são escassas. De qualquer forma o aprendizado parece ser a única solução para a civilização. Aprender é a nossa única saída. E aprender é mudar.

De novo, citando Clarice, em uma tradução livre, “mude, mas comece a mudar devagar pois a direção da mudança é mais importante do que a velocidade”. De qualquer modo, mude. Só o que está morto não muda.

mensagem para leleA palavra chave ensinada por sabedorias milenares é a humildade. Justamente a oposição a esta malfadada paixão pela coerência.

Confúcio, há 3000 anos, já ensinava que, ao tomar chá com alguém, não se deve encher completamente a xícara, pois se assim o fizer, não deixará espaço para que o companheiro possa servi-lo também. Vale dizer que é bom deixar espaço para novos aprendizados, para novos conhecimentos, para nova vida, para uma vida renovada.

Abraço. Amor, compaixão, solidariedade. Felicidade. Sempre.

Felicidade

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