ANTES DA SURUBA…HAVIA PRODUÇÃO INTELIGENTE – Entrevista fictícia de Marcola

25 mar

NÃO FOI REAL, FOI APENAS UM CENÁRIO IMAGINATIVO QUE UM CARA QUE, HOJE EM DIA, EU CONSIDERO UM CRETINO, CONCEBEU – ARNALDO JABOR. CONTUDO, NESTE CASO, DEVO DIZER, HOUVE UMA BOA CAPACIDADE PREDITIVA…

“…ESTAMOS TODOS NO CENTRO DO INSOLÚVEL. A DIFERENÇA É QUE NÓS VIVEMOS DELE E VOCÊS NÃO TÊM SAÍDA. SÓ A MERDA! NÓS JÁ TRABALHAMOS DENTRO DELA.
ENTENDA-ME, IRMÃO, NÃO HÁ SOLUÇÃO. SABEM POR QUÊ? PORQUE VOCÊS NÃO ENTENDEM NEM A EXTENSÃO DO PROBLEMA….”

 

(texto original de 2006 – os comentários entre chaves { } e em itálico não são originais)

ENTREVISTA FICTÍCIA DE MARCOLA, CHEFE MÁXIMO DO PCC, AO JORNALISTA ARNALDO JABOR: “ESTAMOS NO INFERNO””

ENTREVISTADOR: Você é do Primeiro Comando da Capital (PCC)?

Marcola – FICTÍCIO: Mais que isso, eu sou um sinal dos novos tempos {uma previsão?}. Eu era pobre e invisível. Vocês nunca nos miraram durante décadas e, antigamente, era fácil resolver o problema da miséria. O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, discretas periferias. A solução nunca aparecia.

Que fizeram? Nada.

O Governo Federal alguma vez reservou algum dinheiro para os pobres? {quando houve governos interessados em fazer alguma coisa, além de ser tardio, ainda que reconhecidos internacionalmente, foram considerados comunistas pelas “elites” tacanhas brasileiras}.

Nós somente éramos notícia nos escombros das favelas nas montanhas ou na música romântica sobre “a beleza dessas montanhas no amanhecer”; essas coisas…

Agora estamos ricos com a multinacional da droga. E vocês estão morrendo de medo. Nós somos o início tardio da vossa consciência social.

ENTREVISTADOR: A solução seria…

Marcola – FICTÍCIO: Solução? Não há solução, irmão. A própria ideia de “solução” já é um erro.

Você já viu o tamanho das 560 favelas do Rio de Janeiro {hoje devem ser mais…}?
Já andou de helicóptero sobre a periferia de São Paulo?
Solução? Como?
Isso só haveria com muitos milhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral e tudo teria que ocorrer sob o comando de uma “tirania esclarecida” que sobrevoasse a paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice. E do Judiciário que impede punições. Teria que haver uma reforma radical do processo penal do país, teria que haver comunicações e inteligência entre as polícias municipais, estaduais e federais – nós fazemos dentro dos presídios até “conference call” entre os presidiários. E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria uma mudança psico-social profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução. {Quando o pais começou a caminhar na direção da solução, os golpistas, inclusive o autor desta matéria, abortaram todo o projeto e jogaram a nação na anarquia e na esbórnia para a suruba dos escassos ricos, como eles mesmos se definem…}

ENTREVISTADOR: Você tem medo de morrer?

Marcola – FICTÍCIO: Vocês são os que têm medo de morrer, eu não. Ou melhor, aqui no presídio vocês não podem entrar e me matar, porém, eu posso, de dentro do presídio, mandar matá-los aí fora.
Nós somos homens-bombas. Nas favelas existem milhares de homens-bomba. Estamos no centro do insolúvel mesmo. Entre o bem e o mal, no meio, está a fronteira da morte, a única fronteira.
Já somos uma nova “espécie”, já somos outros bichos, diferentes de vocês.
A morte para vocês é um drama cristão, em uma cama, por um ataque cardíaco.
A morte para nós é a comida diária, {com os corpos} atirados em uma fossa comum.

Vocês intelectuais não falam em luta de classes, de ser marginal, ser herói? Então, nós chegamos!
Eu leio muito; li 3 mil livros e leio Dante, porém, meus soldados são estranhas anomalias do desenvolvimento errado do país.
Não existem mais proletários, ou infelizes, ou explorados.
Existe uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada no barro, educando-se no mais absoluto analfabetismo, diplomando-se nos presídios, como um monstro “Alien” escondido nos rincões da cidade.

Já surgiu uma nova linguagem. Isso. É outra língua.
Você está diante de uma espécie da post-miséria. A post-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes.

ENTREVISTADOR: O que mudou nas periferias?

Marcola – FICTÍCIO: Dinheiro. Agora nós temos dinheiro. Você acredita que quem tem 40 milhões de dólares, como o Beira Mar, não manda?
Com 40 milhões de dólares a prisão se torna um hotel, um escritório. Qual é o policial que vai queimar essa mina de ouro. Entende?
Nós somos uma empresa moderna, rica. Se o funcionário vacila, é despedido e “colocado no microondas”.
Vocês são o estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão.
Vocês são lentos, burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio.
Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte.
Vocês morrem de medo. Nós estamos bem armados.
Vocês têm um calibre 38. Nós estamos no ataque. Vocês na defesa.
Vocês nos transformaram em “super stars” do crime. Nós temos vocês como palhaços.

Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados.
Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produtos vêm de fora, somos “globais”. Nós não nos esquecemos de vocês, são nossos “clientes”. Vocês nos esquecem quando passa o susto da violência que provocamos.

ENTREVISTADOR: Porém, que devemos fazer?

Marcola – FICTÍCIO: Vou dar uma ideia para vocês, ainda que seja contrária aos meus interesses.

Agarrem “os barões da cocaína”! Há deputados, senadores, empresários, há ex-presidentes no meio da cocaína e das armas {há ex-governadores, governadores, senadores, militares, jornalistas, donos das mídias, etc. entre os traficantes e os viciados…}.
Porém, quem vai fazer isso? O Exército? Com que dinheiro? Não tem dinheiro nem para a comida dos recrutas {Além de não ter dinheiro, há interesse? Há, pelo menos, dotação orçamentária para ações aí? O comando geral, até o pescoço nesta merda, tem interesse em promover este combate?}.
Estou lendo “Sobre a guerra”, de Klausewitz. Não existe perspectiva de êxito. Nós somos formigas devoradoras, escondidas nos rincões. Temos até mísseis anti-tanque. Se vacilam, vão sair uns ‘Stinger’. Para acabar conosco, somente uma bomba atômica nas favelas da miséria. Já pensou nisso? Ipanema radioativa

ENTREVISTADOR: Porém, não haverá solução?

Marcola – FICTÍCIO: Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não existe mais normalidade alguma.

Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência.
Devem ser francos, sérios, na moral.

ESTAMOS TODOS NO CENTRO DO INSOLÚVEL. A DIFERENÇA É QUE NÓS VIVEMOS DELE E VOCÊS NÃO TÊM SAÍDA. SÓ A MERDA! NÓS JÁ TRABALHAMOS DENTRO DELA.

ENTENDA-ME, IRMÃO, NÃO HÁ SOLUÇÃO. SABEM POR QUÊ? PORQUE VOCÊS NÃO ENTENDEM NEM A EXTENSÃO DO PROBLEMA.”

ate-onde-vai-a-toca-do-coelho-2

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