Em apenas uns vinte dias em minha vida…

18 set

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Coisas aconteciam, coisas acontecem e coisas acontecerão. Sempre acontecem, coisas novas, coisas diferentes, coisas absurdas, coisas maravilhosas. Coisas boas, coisas ruins, coisas nem tão boas assim.  Algumas inesperadas, surpreendentes. Outras nem tanto. Sonhos quebrados, sonhos realizados.

Algumas coisas são sonhos que nunca se realizam ou que nunca se realizarão. Assim é que é. Assim que é e que, tantas e algumas vezes, a gente até gostaria que assim não fossem. Mas é assim que as coisas são.

Há anos planejando aquela viagem fantástica que nunca realizei por inteiro e este sonho me volta à cabeça. Justo agora.

Mas um dia, em Belo Horizonte, um dos poucos lugares onde ainda assisto televisão – lá tem tv a cabo e com algumas coisas melhores que as porcarias dos canais abertos – ligo a televisão em casa em um canal da Discovery, sei lá qual deles. Rapaz, veja só, estava começando naquele instante um filme sobre uma viagem fantástica realizada por dezesseis pessoas, todas acima dos cinqüenta anos de idade. Alguns perto dos setenta. Partiram inicialmente do País de Gales, depois Londres, rumo ao oeste da Rússia, no fim da Sibéria. O nome do filme eu sei bem, pois logo tratei de gravar: “Jornada épica em duas rodas: Para além da Sibéria” … Os caras partiram em uma viagem de fato épica, muito além de meus sonhos mais ousados. Mais de cem dias sobre as motos em uma rota acima de trinta mil quilômetros, de Londres a Magadan.

Dias ou semanas antes, a espera de ser atendido no consultório médico, conheci um cara ali na ante-sala. Ele tinha uma BMW 650 que queria vender, pois acabara de comprar uma novinha de 1200 cc. Ele contava sobre suas viagens, uma, por exemplo, de ida e volta ao Atacama, um deserto ao norte do Chile. Uma viagem de doze mil quilômetros. Eu ouvia e, de certa forma, babava pelos cantos da boca. Não conseguia parar de sorrir e de sentir uma doce inveja das realizações daquele outro “senhor”, quase com a mesma idade minha. Confessei a ele a minha “inveja boa”. Troquei um olhar e algumas palavras com a minha mulher que ali estava: “Topa?” Ela logo retrucou: “De moto? De jeito nenhum. Já te falei que morro de medo. Podemos fazer de carro um dia desses”.

De volta ao filme, a certa altura o cara que comandava a aventura comenta algo como “já tenho sessenta e poucos anos e decidi que não vou terminar a vida assistindo as aventuras de outros pela TV. Não quero passar a vida morto…etc. e tal. Quero viajar, quero fazer as coisas que eu mais gosto de fazer…” ou algo parecido com isto. Uma sacudida forte. Outro sacode em minha mente. Chamei minha mulher para assistir comigo, mas o nosso neto estava por ali, muitas brincadeiras gostosas e não consegui assistir o filme até o final. Que bom que estava gravando. Tudo bem, assisto depois. Acredita que já comecei a assistir a este filme mais três vezes e nunca consegui ir até o final? Curioso, né não?

Mais alguns dias, outra consulta médica ou então indo ao dentista, não me lembro. O fato é que entramos na Avenida Raja Gabaglia em Belo Horizonte, recém saindo de nosso apartamento. De repente, e assim mesmo, nada mais do que de uma hora para outra, somos ultrapassados, naquele trânsito horroroso, por uma “SUV” Nissan, esqueci o nome do modelo, mas é aquela montada sobre a plataforma da pick up Nissan Frontier. O que chamou minha atenção foi a grande quantidade de adesivos colados na traseira do jipão, além, é claro, do que ele carregava sobre a capota, uma daquelas cabanas de acampamento que podem ser abertas ali mesmo, sobre o teto do carro. Pedi minha mulher que desse um jeito de se aproximar, pois eu havia ficado muito curioso com aquele carro e com seus ocupantes. Não conseguimos emparelhar com ele. Contudo a placa ficou claramente identificada: o carro vinha do Canadá, de Quebec! Puxa! Olha só!

Mais alguns dias e saímos a viajar, minha mulher e eu. Destino Foz do Iguaçu, sonho de muito tempo, desde que pudemos, há cerca de vinte anos atrás, conhecer aquelas famosas cataratas do rio Niágara, fronteira entre o Canadá e os EUA, que tão exuberantes nos pareceram à época. Qual nada. Hoje posso dizer que ainda bem que as conheci antes de conhecer as cataratas da foz do rio Iguaçu. Estas superam de longe àquelas. Nunca vi nada tão lindo e escandalosamente belo em minha vida. Mas não é nada disto que quero falar.

No caminho para Foz do Iguaçu, uma viagem maravilhosa de mil e quatrocentos quilômetros, passamos pela usina de Furnas que muito nos impressionou. Ao longo deste trecho, perto de cem quilômetros antes de chegarmos a Furnas, mas já perto das margens do lago da represa, começam a passar por nós muitas e muitas motocicletas. Casais, grupos, solitários motociclistas; motos grandes, motos enormes, motos menores, triciclos lindos, outros nem tanto. Eram muitos mesmo, alguns parados em bares e restaurantes à beira da estrada. Outros parados a ver as paisagens. Outros a passar por nós, em ambos os sentidos.

Paramos para apreciar a paisagem, paramos para admirar a represa de Furnas. Pudemos conversar com alguns motociclistas, uns ‘trilheiros’ da região e outros ‘estradeiros’. Nem acreditei quando me disseram que naquele final de semana aconteceria um encontro de motociclistas nas cidade de Passos. Esperava-se o encontro de dez mil motos e motociclistas. Este encontro poderia superar quinze mil pessoas, entre casais e motociclistas solitários. Êpa! Olha só! Mais um sacode?

Entre Furnas e São Sebastião do Paraíso, mais e mais motos… tanta motos…

Seguimos até Marília naquele dia, passando pelos intermináveis campos de cana de açúcar. Tanta terra boa, terra roxa mesmo, apenas para plantar cana e “colher” álcool para os motores dos automóveis. Muito pouco alimento pôde ser visto plantado por ali. Aquilo me chamou a atenção mais uma vez, um pouco chocado, confesso. Dormimos em Marília.

No outro dia chegamos à maravilha da natureza, chegamos às cataratas do Iguaçu. Que deslumbre. Que fascínio. Tantos anos sem vir até aqui para ver isto. Como somos nada neste planeta Terra. Como somos tão pouco e tão pequenos. Como somos insignificantes e como somos arrogantes. Presunçosos.

Cataratas do Iguaçu. Quem nunca foi, vá. Impossível de se descrever. Nunca vi nada tão belo em minha vida.

Ali, passeando pela cidade, onde acabamos por ficar cinco dias ao invés dos três planejados inicialmente, pudemos ver mais e mais motociclistas em viagens. Conheci um sujeito, ele foi nosso guia em um passeio muito legal por Foz; o cara estava em vias de partir em uma viagem com sua namorada cruzando a Argentina, chegar ao Chile, Santiago e subir até onde? Até o Atacama! No segundo hotel no qual nos hospedamos, um encontro de motociclistas maçons; eram esperados cerca de duzentas motos neste encontro em Foz, segundo o gerente do hotel.

Entretanto o que mais chamou a minha atenção foi uma Kombi velha, muito velha e surrada, parada ali em uma feira de atuais “food trucks” que, diga-e de passagem, não gosto nem um pouco. A placa da Kombi era de Santiago-Chile e ela estava coberta por adesivos de muitas e tantas cidades. Aquilo sim chamou a minha atenção. O cara vendia miniaturas de Kombis feitas em plástico, selos e outras bugigangas para se sustentar. Compramos uma miniatura e começamos a conversar com o chileno – de novo, não me lembro do nome do cara!! Apenas sei que começa com a letra S. Que coisa mais chata, está acontecendo tantas vezes comigo, esquecer nomes de pessoas e lugares! – Ele estava a onze meses na estrada. Já havia ido a Ushuaia, no sul da Argentina, já havia ido até Búzios e Cabo Frio. Voltara à Foz do Iguaçu e seu destino ainda era ir até o Alasca. Aliás, sua kombi tinha os dizeres “de Ushuaia ao Alasca” com letras bem grandes!

Conversamos muito com o cara – incrível eu não me lembrar do nome dele. Ele contava que estava hospedado em um albergue, com o qual havia feito uma permuta: cama e café trocados por divulgação do albergue na página do “facebook” do sujeito. Ele contou que no dia anterior tinha estado na entrada para o parque das cataratas e que não pôde entrar pois não tinha os R$35,00 para pagar o ingresso. E, veja que curioso, naquele dia ele havia feito o sobrevoo de helicóptero nas cataratas, a convite de um holandês que ele conheceu no albergue. Olha a ironia: não tinha os trinta e cinco contos para entrar e voou um sobrevoo que custa quatrocentos e tal por pessoa; irônico, né não?

Despedimo-nos do chileno – ainda não me lembro do nome dele – e nos sentamos em um bar para comer um peixinho frito e tomar algumas cervejas. Comentei com a minha mulher que eu já havia entendido tudo. Que tantos sinais não teriam surgido por nada ou para nada. Eu já tinha entendido o que estava por vir e já tinha entendido também o que eu tinha que fazer pelo resto de minha vida, tivesse o tamanho que este resto viesse a ter. Não quero parar mais. Como ensinou aquele cara na viagem à Sibéria, eu também não quero ficar vivendo as experiências do outros em frente à televisão. Eu quero e preciso viver as minhas próprias aventuras. E pronto.

4 Respostas para “Em apenas uns vinte dias em minha vida…”

  1. Fred 3 03-03:00 dezembro 03-03:00 2016 às 22:34 #

    Olá, irmão assisti o programa e senti a mesma ligação!

    Curtido por 1 pessoa

    • gustavo_horta 4 04-03:00 dezembro 04-03:00 2016 às 11:24 #

      Pois é.
      Já comecei a mudar!
      “…Eu já tinha entendido o que estava por vir e já tinha entendido também o que eu tinha que fazer pelo resto de minha vida, tivesse o tamanho que este resto viesse a ter. Não quero parar mais. Como ensinou aquele cara na viagem à Sibéria, eu também não quero ficar vivendo as experiências do outros em frente à televisão. Eu quero e preciso viver as minhas próprias aventuras. E pronto.”
      Abraço.
      Amor, compaixão, solidariedade.
      Felicidade. Sempre.

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  2. Eliane Maria Kochenborger Leitão 5 05-03:00 janeiro 05-03:00 2022 às 15:41 #

    Nossa!
    Emocionante…
    Também não quero ficar olhando a vida dos outros!!!

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