A casa na roça

3 jun

um beijo um tanto2O ano era 1989. Era uma manhã bem fria do inverno. Nós íamos para São Sebastião das Águas Claras.

É um distrito do município de Nova Lima, mais conhecido como Cachoeira dos Macacos ou simplesmente Macacos. Fica ali nada2bem pertinho de Belo Horizonte, a poucos minutos da Praça da Savassi.

Íamos para lá bem cedo, junto com meu irmão, que já era proprietário de uma pequena gleba de terra ali e queria que nós comprássemos uma terrinha ao lado da dele. Lá fomos nós, com as nossas parcas economias, tentar realizar o sonho de nos mudar da cidade para uma vila do interior.

Conhecemos o terreno. No lombo de uma serra muito linda, bem como se fosse a cela em um cavalo. Dentro do terreno, dois jacarandás centenários. Alguns cedros, muito mato. Pouca área plana, forte declive ao fundo do terreno. Mas eram os mil metros quadrados pelos quais nos apaixonamos logo de cara. Um cheiro muito bom de terra, um cheiro muito bom de mato, um cheiro ainda melhor dos bichos e insetos. E bem ao lado do terreno de meu mano. Melhor seria difícil.

Fomos lá para a vila, ao restaurante da D. Dica. O terreno pertencia ao filho dela, o Ronaldo. Tomamos ali um café gostoso e começamos a prosear.

Conversa vai, conversa vem e acabamos comprando o terreno. Como sempre fizemos, legalistas ao extremo, tratamos de registrar a escritura do terreno lá na Prefeitura de Nova Lima, como já o fizera meu mano com o dele.

Dias depois, a irmã de minha mulher foi conhecer ‘nossas terras’ com o meu sogro e, resultado, acabou comprando outra glebinha ao lado da nossa. Ficamos os três terrenos juntinhos. Bom demais.

Foram muitos churrascos ali ao ar livre, em vários finais de semana.

um pouco de areiaContudo havia um problema, na verdade, dois problemas: não havia rede elétrica até ali nem água. Água nenhuma, posto estarmos no alto de uma serra, como eu disse. Apenas a promessa de que a fornecedora iria levar água encanada até lá. Conversa fiada, pois a demanda nunca iria justificar, é claro, mas nós acreditamos. Como é doce a ilusão, né?

O tempo passou, os churrascos pararam de acontecer. E põe tempo nisto. Os anos se passaram. Conseguimos fazer a extensão da rede elétrica até lá e batizamos, por ideia de meu mano, nossa ruela de Rua da Luz. Chama-se assim até os dias de hoje. Rua da Luz. Padrões instalados, números pregados nos padrões. Agora nosso terreno tinha energia elétrica, a rua que passava na frente tinha nome e já tínhamos números nos padrões. Um grande avanço.

E a água? Nem sinal. Mais algum tempo se passou, bastante tempo e nos reunimos com outros vizinhos na empreitada de resolver o problema da água. Furamos lá embaixo, ao pé da serra, nosso poço artesiano. De artesiano não tinha nada e só foi dar água com mais de duzentos metros de profundidade. Tínhamos luz, pusemos uma bomba d´água, instalamos uma caixa d’água lá no alto da serra, uma caixa d’água ‘canadense’ de aço, acho que de trinta mil litros. Era a ‘maior caixa d’água do mundo’, pois nunca enchia. (he he he)

Agora tínhamos água, tínhamos luz, tínhamos até uma rua com nome passando rente à frente da chácara a ser construída. Muito tempo havia se passado, tempo demais.

Meu mano, o pioneiro, já havia vendido para nós o terreno dele, pois precisava de dinheiro para dar acabamento na casa que ele tinha construído para morar, lá mesmo em um condomínio de Nova Lima.

Surgiu uma oportunidade de vendermos os três terrenos, os três mil metros quadrados de uma vez só, com uma realização de um lucro muito grande mesmo para a época. Não resistimos e acabamos vendendo. Dias após ficarmos sabendo de algumas maracutaias que nossos futuros vizinhos dali andaram “aprontando”.

Entre a compra e a venda passaram-se quase vinte anos. Como o tempo passa… O sonho de nos mudar da cidade para uma vila foi adiado e somente pôde ser realizado mais alguns anos depois, em 2012. Olha só como são as coisas.

Neste ano, minha mulher e eu já havíamos andado por uma porção de lugarejos ao redor de Belo Horizonte e não encontrávamos nada que estivesse de acordo com as nossas possibilidades e necessidades. Quando o dinheiro dava para comprar seria outra maratona com água, ou com luz, ou com água e com luz,… Quando tinha tudo o que precisávamos, o dinheiro era insuficiente.

bencaosMinha cunhada casou-se a acabou por comprar, com o marido, uma fazendinha ali em Ponte Nova. E nós à procura de algum cantinho.

Certo dia, em uma atividade profissional lá em Itaúna, um amigo me falou sobre a região de Bonfim, Rio Manso, Piedade dos Gerais. Ele me disse que o lugar era cheio de pequenas chácaras, de gente boa, pouca gente, mas gente boa. Resolvemos ir até lá em certo sábado, pela manhã.

Ao sair da Fernão Dias, logo ali pertinho, ao pé da Serra de Igarapé, mas do lado de lá, já começava uma rodovia estadual de asfalto precário e bastante sinuoso, que corria serpenteando pelo vale dos córregos da região. Já gostamos.

Naquele zigue-zague embalador, a gente ia viajando. Poucos quilômetros adiante, logo a seguir de uma serrinha que formava uma lombada na estrada, a vista apresentava uma lagoa enorme. Água azul escuro ou verde escuro, sei lá. Só sei que era bonita demais. Gostamos do que vimos.

Mais um pouquinho, mais uma curva à direita e já vimos algumas casinhas ao longo da serra, rente às margens da tal lagoa. Puxa vida, já instalaram um condomínio ali, foi o que pensamos. E morar em condomínios não estava em nossos planos de forma alguma.

Mais alguns poucos quilômetros, mais umas tantas curvas, mais fortes, mais amenas e vimos uma placa sinalizando uma vilazinha à esquerda. Era a placa assinalando o Souza a um quilômetro e meio. Ora bolas, condomínios não são, em princípio sinalizados pelo estado. Paramos no trevinho e entramos para o Souza.

Pudemos encontrar uma vilazinha simpática demais, com uma igreja de Nossa Senhora das Graças bem na pracinha principal, ali em frente à venda do Puba e da Talina. Mas a gente ainda não conhecia este pessoal.

Seguimos margeando a vila em busca da margem da lagoa vista lá da estrada. Curioso, não se conseguia chegar ali. Encontramos um senhor com o seu netinho ali por perto a fazer nada. Era o Sr. Moreira com o neto. Proseamos um pouco e ficamos sabendo que a tal lagoa era na verdade a represa de um sistema de abastecimento de água para a população de Belo Horizonte, o sistema Rio Manso. As margens eram área de segurança e não se podia chegar lá. A vila estava próxima desta reserva permanente.

pica pauE como esta vila nos encheu os olhos com a sua simplicidade e aconchego. Prosa boa com o Sr. Moreira e ele já nos encaminhou, por nosso pedido, para ver a casa de um sobrinho que estava à venda. Chegamos lá, casa fechada, muro alto azul. Batemos muitas vezes e nada. Um casal por perto estava com seus dois filhos a ‘limpar’ uma boca de lobo que parecia meio entupida com terra corrida pelas chuvas recentes. Proseamos mais um pouco, sem informações sobre outras possibilidades. Apenas nos disseram que os donos daquela casa quase nunca estavam ali e, portanto, não vendiam a casa, pois nunca a podiam mostrar aos interessados.

sumir1Não mais do que de uma hora para outra encosta na janela do carro, pelo lado esquerdo, um moleque a perguntar se nós estaríamos a procurar uma casa para comprar. Era o Júlio, amigo até hoje e, acredito, por muito tempo. Ele disse conhecer uma boa casa à venda. Ao perguntar ao moleque se a casa que ele conhecia era longe, ele sorriu mostrando seus dentes e foi logo informando que ali na vila “não tinha nada longe não senhor”. Sorri para ele também e ele entrou no carro.

Poucos quarteirões depois, três ou quatro, chegamos à pracinha da Nossa Senhora do Rosário. Pracinha modesta, cheirosa e limpinha. Meio fios branquinhos de cal virgem. Um quarto de volta na pracinha, viramos à direita e lá estava a casinha. Puxa vida! Era exatamente a casinha que sonhamos um dia construir lá em Macacos. Mas era a mesma casinha, amarela, com grade azul e telhado de telhas velhas de barro, janelas de madeira e porta da frente partida ao meio. Mas como isto era possível, justo ali a casinha que a gente tanto sonhou por tanto tempo, por tantos anos!

Claro que não deu outra. Conversa vai, conversa vem, negocia daqui, negocia dali, pechincha um pouco, pechincha um pouco mais, proseia mais um pouco e pudemos chegar a um acordo com a dona da casa, a sra. Sandra e o marido Augustus.

um beijo12Mudei-me para o Souza, a bem dizer para o Pequi, um pequeno bairro do Souza em 2012. O Souza é um dos distritos do
município de Rio Manso, um distrito de pouca gente morando, com alguns sitiantes que ali aparecem nos finais de semana, em particular naqueles com feriados prolongados. Cantinho bom de gente boa. Cantinho bom de boa prosa. Cantinho bom de boa cachacinha, com bom fígado acebolado com jiló, excelente pizza caseira do Léo e da Cristiana, comidinha deliciosa da Deise no Empório, angu a baiana especial no Geraldo Cansanção co

temp2

m uma Original bem geladinha e uma Seletinha de guia. Cantinho bom de boa prosa com a Lúcia, com a Ana, com o Eustáquio da sorveteria. Cantinho bom demais.

Amor, compaixão, solidariedade. Bênçãos, muitas, permanentes, abundantes. Agradecer, retribuindo e dividindo.
Felicidade. Sempre.

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8 Respostas to “A casa na roça”

  1. Dina Dee 3 03UTC junho 03UTC 2015 às 15:34 #

    Como diz a música do milton (acho): “os sonhos não envelhecem…”. Adorei! bjs

    Curtido por 1 pessoa

    • gustavo_horta 3 03UTC junho 03UTC 2015 às 15:37 #

      Eu agradeço mais uma vez o seu carinho e a sua generosidade, Dina.
      Você está certa, sonhar é permitido. Perseguir seus sonhos pode ser mesmo muito bom.
      Que bom que você tenha gostado. Beijo grande.
      Amor, compaixão, solidariedade.
      Felicidade. Sempre.
      Gustavo Horta

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  2. Valéria Miguez (LELLA) 8 08UTC junho 08UTC 2015 às 20:44 #

    Que a saga 🙂 E Felicidades na nova casa!

    Curtido por 1 pessoa

    • gustavo_horta 8 08UTC junho 08UTC 2015 às 21:11 #

      A felicidade é minha obrigação permanente, minha ÚNICA missão na vida. A casa nova trouxe-me mais alegrias que vieram a fortalecer a minha felicidade.
      Agradeço seu desejo e agradeço também mais esta sua carinhosa visita e comentário.
      Abraço grande.
      Amor, compaixão, solidariedade.
      Felicidade. Sempre.
      Gustavo Horta

      Curtido por 1 pessoa

  3. Thaís Lira 16 16UTC junho 16UTC 2015 às 2:02 #

    Me senti lendo um daqueles livros, quais a gente começa a ler a historia, e se sentir parte dela. ❤ Uma honra te ler. Gratidão por compartilhar sua historia com a gente. Continue sempre feliz! E que a paz esteja sempre com você e sua família. Bisous!

    http://www.pontodalira.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    • gustavo_horta 16 16UTC junho 16UTC 2015 às 18:01 #

      Cara Thaís, não tenha dúvida de que a honra é toda minha.
      Agradeço muito sua visita, a gentileza e o carinho de suas doces palavras. Meu ego fica todo inchado e massageado.
      Abraço grandão.
      Amor, compaixão, solidariedade.
      Felicidade. Sempre.
      Gustavo Horta

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  4. Maris lucia 7 07UTC outubro 07UTC 2017 às 20:18 #

    Gustavo amei esta cronica. Agora entendo porque vc foi parar no Souza. E estou com muita vontade de conhecer este lugar. Um sbraco pra vc e Marcia.

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