O ano era 1987…

28 mar

Uma manhã fria na cidade de São Paulo. Conversa acirrada com o motorista do táxi, em direção à São Bernardo. Indo ali pela Avenida do Estado.

A conversa nem era uma discussão, pois ambos falamos na mesma sintonia. Ambos muito chateados com a situação em que o país se encontrava.

Eita taxistaE falávamos muito, praguejávamos muito, conversa acirrada e nervosa.

Aí eu resolvi contar para o taxista que eu e minha família iriamos imigrar. Imigrar para o Canadá e emigrar do Brasil. Cansado desta merda!!! (rs rs – parece que nada mudou nestes anos todos! rs rs)

Quase tudo já acertado, papéis na embaixada de Buenos Aires, já na última fase. Cidade escolhida, Vancouver. Emprego já negociado como engenheiro metalurgista em uma usina de lá. Não aguentava mais viver aqui com a minha família!

E o taxista apoiava fervorosamente. – “É isso mesmo, aqui não dá mesmo para se viver! Tudo uma porcaria!”

Eu usava um terno para visitar um cliente da empresa em que eu trabalhava à época. Íamos fazer juntos uma iniciativa marqueteira no mercado de aços inoxidáveis para estimular o consumo e divulgar as aplicações destes materiais.

O taxista olhou para mim meio de lado, meio assim de soslaio e perguntou: – “O senhor é doutor, né? Logo se vê pelas suas roupas. É formado em quê?”

– “Engenheiro Metalurgista.” E desandei a falar um monte, que estudei a vida inteira em escolas públicas, do saudoso Bueno Brandão, Instituto de Educação, Colégio Estadual Central, UFMG. E agora, a cada mês, gastava com o ensino de minhas filhas a o que meu pai gastara comigo para toda a minha vida! – “Um absurdo!”

-“É verdade!, É assim mesmo. O senhor deve ter uns dez anos de formado, não é? Pois é. Agora é que o senhor começou a dar retorno ao país pelo investimento feito no senhor. Aí, é assim mesmo, o senhor vai se mandar para o Canadá. Os caras de lá é que vão colher os frutos do plantio feito aqui no Brasil. O senhor sabe de uma coisa? Enquanto o senhor estudava na sua escola de Engenharia pública eu já estava aqui guiando o meu táxi. Naquela época era um carro alugado no qual eu tinha que pagar a diária ao dono. O senhor sabe que fui eu que paguei a sua escola? E agora o senhor vai-se embora… Mas é isso mesmo, o senhor pode se mandar e deve mesmo cair fora. Isto aqui não tem mesmo jeito…”

Senti-me tão pequeno e tão ridículo a partir daquela última frase que nem me lembro mais o que ele disse. Aquele banco do fusca, era o táxi, parecia enorme de tão pequeno eu estava. E a fábrica que eu ia visitar nunca chegava. Eita avenida grande, um congestionamento depois do outro, viagem que não tinha fim! Não consegui mais dizer uma só palavra! Vergonha, muita vergonha!

O taxista não quis me ferir, mas atingiu-me diretamente. Bem no peito!

Chegamos, finalmente. Paguei e agradeci. – “Boa viagem, senhor! Felicidades para o senhor e para a família!”

Entrei na empresa. Reunião com o Gilberto. Contei para ele, já que éramos amigos, antes de sermos cliente e fornecedor. Não consegui trabalhar naquele dia. Nenhuma concentração. Só ouvia aquela frase do taxista: – “O senhor sabe que fui eu que paguei a sua escola? E agora o senhor vai-se embora…”

Voltei para Belo Horizonte, contei para a minha mulher, contei para meus colega de trabalho. Havia uma dívida a ser quitada com a nação brasileira.

Visitamos o Canadá em 2008, aos vinte anos de casados. Belo país, gente muito boa.

Até hoje temos a papelada da emigração guardada como uma recordação. Taxista danado, taxista mais sábio, eita taxista …

Amor, compaixão, solidariedade. Felicidade. Sempre.

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2 Respostas to “O ano era 1987…”

  1. Valéria Miguez (LELLA) 30 30UTC março 30UTC 2015 às 8:15 #

    Uau! Coisa boa de se ler pela manhã! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • gustavo_horta 30 30UTC março 30UTC 2015 às 9:01 #

      Bom dia!!
      Agradeço sua visita, mais uma vez!
      Que bom que tenha gostado! É uma história real e se deu comigo. Mas, sinceramente, não sei se minha dívida era assim tão grande para nunca mais ter ido embora!
      Ver o que acontece ao nosso redor me incomoda muito e não fazer quase nada me incomoda muito mais!
      Abração.
      Amor, compaixão, solidariedade.
      Felicidade. Sempre.
      Gustavo Horta

      Curtido por 1 pessoa

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