O cara olha para a montanha

17 out

Já estava cada vez mais velho. Por curioso que possa ser, há casos em que se fica mais jovem com o passar do tempo. Mas este não era o caso deste cara. Ele envelhecia por fora… e envelhecia por dentro.

Sua alma envelhecia, seu espírito envelhecia.

ImageEle olhava para as montanhas, certo de que uma delas iria desaparecer em breve. Ainda em sua vida! Poderia acontecer como acontecera com a fazenda de seus ancestrais que havia sido transformada de uma bela montanha, conhecida como Duas Barras, onde residia o pico do Cauê, em um grande buraco. Enorme!

E isto agora estava acontecendo diante de seus olhos! Nos dias de hoje! Diante dos olhos de todos! É a conversão da montanha em ouro! Ouro de tolos? Sabe-se lá. Mas que depois se converte em carros esporte. Carros esporte que depois atropelam, e matam, ciclistas alcoolizados na noite escura da Serra do Mar. Serra esta que ainda resiste. Até quando? Sabe-se lá.

O cara, ali, sentado na varanda de sua casinha da roça, olhava as montanhas; uma delas em franca extinção. A outra, enquanto a cidade grande precisar de água, poderá se manter preservada. Somente enquanto a destruição dos lençóis freáticos da outra montanha não tiver impacto naqueles desta bela montanha. Uma das montanhas é bela, bela demais. A outra já está cheia de cicatrizes, muito mutilada! É a transformação de terra e pedras em ouro! Ouro de tolos. Safra única.

“Senhor perdoe-nos, se for possível”, é o que pensava aquele cara, igualmente em extinção, como a montanha para a qual ele olhava!

O cara olhava para as montanhas e seus olhos traziam emoção para seu coração. Um velho, em construção, olhando para as montanhas, vendo coisas antes nunca vistas. Antes olhava, mas não via. Nesta sua nova vida na roça, velho de novo e novo em suas novas experiências e observações. “Senhor perdoe-me, se puder”.

Bicho de pé, dedos amassados, unhas quebradas, braço mordido pela cadela Cléo, amiga, companheira que às vezes exagera, topadas, pés sujos de terra vermelha e rara. Água bebida que vem servida pela serra gentil que ali fazia sombra e protege o povo dos ventos fortes. Acredito que o velho não se esquecerá jamais deste tempo sabático, que, quem sabe, pode durar para sempre. Até porque seu sempre será curto, será breve. Muito tempo não há, muito tempo não haverá. Breve o velho pode partir, posto que a chegada se aproxima. E, como já se sabe, chegada e destino não há!

O velho já aprendeu ao longo da vida, gentilmente ou não, que “…amanhã tudo pode acontecer! Inclusive nada!”. E ele sabe que também pode ser necessário que as coisas piorem bastante, muito mesmo, para que alguma coisa possa melhorar. Se o caminho exigir uma piora permanente e decidida, pode-se estar indo na direção certa. Ele, entre um gole e outro de Bourbon – como o velho gosta deste Bourbon! – continuava a olhar para as montanhas. São duas, uma bela, coberta de vegetação exuberante, com algumas cascatas visíveis e outras não. Com nascentes que abastecem a enorme represa que foi construída para abastecer com água boa a grande cidade. A outra, coitada, cheia de cicatrizes e mágoas! Envelhecida como ele, marcada e machucada como ele. Só difere dele porque ele, quase que teimosamente, ele continua a ser feliz. Chega até a parecer estúpido ou mesmo idiota. Mas o velho continua a ser feliz. Estranho, né?

Enquanto isto, a montanha já mostra seus sinais de tristeza, uma vez que a extinção parece próxima. E o velho olha para ela, com o coração cheio de compaixão e impotência. Nada se pode fazer, pois a terra em ouro se transformará e o ouro em carros esporte se transmutará. E os carros, em alta velocidade, matarão os ciclistas alcoolizados nas madrugadas das noites que se vive!

E a vida das pessoas vai em frente. Elas vivem suas vidas, distraídas e desatentas, dopadas pela mídia que as faz ver o que o poder deseja. “Distraídas e destruídas” pelas novelas diuturnas, pelos telejornais dirigidos e passionais – comprados. E as pessoas vivem suas vidas distraídas e desatentas, assim como o velho fazia até recentemente.

“Pai, perdoai-nos, pois nós não sabemos o que fazemos! Perdoai-nos, se puder. Perdoai-me, senhor, se for possível.”

E as montanhas estão lá. Impassíveis e impotentes. Uma em plena destruição, extinção. Luzes, galpões, caminhões, máquinas, explosões. Outra somente a observar a morte lenta da companheira milenar, que desde sempre esteve ali ao seu lado e que, pelas mãos de outros, agora se vai!

Ainda que antagônico e paradoxal, envelhecer pode ter suas nuances curiosas. Por um lado é a viagem que se vislumbra próxima do final, um destino desconhecido a chegar, ainda que a partida já sinalize a sua hora. Por outro lado, não é mais necessário ocupar-se, ou mesmo, sequer, preocupar-se com o andamento de qualquer acontecimento. Tudo acaba por tornar-se indiferente, mesmo que traga sua grande tristeza e ainda que seja meio frustrante. Ainda que haja este sentimento de culpa pelo fracasso compartilhado por toda uma geração, pode-se olhar para a montanha e ver que não a terá que remover, contornar, saltar… apenas contemplar. Obstáculos não há mais! Desafios, não os há!

Menos tudo, menos de tudo isso, como disse, com sabedoria, meu mano! São muito menos as coisas de que se precisa. As necessidades são muito poucas. Até porque os segredos de cada um não existem mais. Coração fragmentado, dividido. Paixões sempre iguais, num apego permanente ao de sempre. Caminhos conhecidos, sem construir novas estradas! Paisagens já vistas, algumas admiradas outras sequer percebidas!

Algumas coisas retomam ao velho suas reminiscências da juventude, sensações da adolescência, algumas já até esquecidas. Mesmo que temporária e transitória, às vezes, volta, de novo, a adolescência, agora vista e apreciada com o aprendizado acumulado pela idade. Ensinamentos da vida, concedidos gentilmente, ou não. Depois, o velho vê que ele está mesmo velho, de novo!

Aí, ele olhava para as montanhas, certo de que uma delas iria desaparecer em breve. Olhava as montanhas; uma delas em franca extinção, acontecendo diante de seus olhos, entre um gole e outro de Bourbon. Às vezes, um golinho da boa cachaça de Minas. Às vezes uma cervejinha gelada. Às vezes, nada. Só este olhar solto e distante.

Tem, o cara, um monte de coisas para fazer, mas a preguiça é muito grande. O cara só quer ficar ali, parado, olhando. Pela montanha ele via seus filhos, netos. Através da montanha via sua companheira, um pouco menos velha do que ele, ativa e dinâmica. Via seus irmãos, dois no total. Também menos velhos e mais ativos. O velho sorria. Via seus pais, via sua mãe, mais velha do que ele, naturalmente.

De novo, surge a imagem do velho, o cara que olhava para a montanha, para as montanhas, o casal de bem-te-vis, a mãe, a cria, a vista da varanda, a companheira, os irmãos, os netos…

Apenas olhava, contemplativamente, e pronto.

Abraço e felicidade.

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10 Respostas to “O cara olha para a montanha”

  1. antonio ruy 17 17UTC outubro 17UTC 2012 às 16:17 #

    Esse estado ZEM, é para poucos, a linha da realidade se confunde com a fantasia e sonho
    Parabens ,vc atingiu o degrau da sabedoria,espirito ao inves metal.

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    • gustavo_horta 17 17UTC outubro 17UTC 2012 às 16:25 #

      Que vontade grande de acreditar!! Meu ego, além de massageado por suas palavras carinhosas e gentis, está super inchado!! Agradeço muito.
      Abraço grande e felicidade.
      Gustavo Horta

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  2. lista de emails 17 17UTC outubro 17UTC 2012 às 19:46 #

    great blog! the information you provide is quiet helpful, why i was not able to find it earlier. anyways i’ve subscribed to your feeds, keep the good work up. lista de emails lista de emails lista de emails lista de emails lista de emails

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  3. Maria Quinn 18 18UTC outubro 18UTC 2012 às 20:06 #

    Oi,obrigada por colocar em palavras os sentimentos que carrego dentro de mim! Cheguei a sentir a dor da montanha!

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    • Gustavo Horta 18 18UTC outubro 18UTC 2012 às 22:13 #

      É mesmo assim. O velho olha para as montanhas, se identifica com elas, com as duas e, às vezes, chega a chorar também!
      Abraço e felicidade,
      Gustavo Horta

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  4. Gustavo Henrique Neves 20 20UTC outubro 20UTC 2012 às 0:27 #

    como estes textos nos trazem calma, e impressiontante como as palavras colocadas dessa maneira nos fazem relaxar como se estivessemos deitados e refletindo sobre a vida de maneira sadia e com gosto, e nao com aflicao, como muitos fazem, achei muito bom, gosto disso, gostei da narrativa, bem calma e cheia de detalhes que nos desviam e nos faz recriar espacos e objetos na mente, gosto disso, otimo mesmo
    Tb escrevo, se quiser da uma passadinha la, http://pulsosavulsos.blogspot.com.br um abrass

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    • gustavo_horta 20 20UTC outubro 20UTC 2012 às 0:38 #

      Olha só, Xará! Que bom ler seus comentários!
      Eu não tinha este objetivo, mas acaba sendo mais um produto que a crônica pode proporcionar!
      Vejo que não há sub-produtos; só produtos!!
      Muito legal!
      Assim que eu puder vou visitar seu blog sim, com muito prazer.
      Agradeço suas palavras. Abraço e felicidade,
      Gustavo Horta

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  5. Heloisa Maria Guimarães Zola 20 20UTC outubro 20UTC 2012 às 7:14 #

    Querido Gustavo , mais uma vez dá vontade de sentar do seu lado nesta varanda e contemplar estas montanhas com você.
    Você é realmente o cara que nos faz navegar em suas palavras.
    Gostei de sua explanação.
    Um grande abraço

    sua amiga de Boipeba
    Heloisa Maria

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    • Gustavo Horta 20 20UTC outubro 20UTC 2012 às 14:53 #

      Mais uma vez suas palavras são sempre gentis!
      Agradeço muito mesmo!
      Abraço e felicidade,
      Gustavo Horta

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